Tema da aula: Educação
Título: A estrutura social e a estrutura educacional brasileira.
Ênfase: A educação como instituição de reprodução social.
Conteúdo:
Nesta
aula serão recuperados os indicadores econômicos e sociais PIB/IDH estudados na
aula 0202 como ponto de partida.
Análise
comparativa entre a estrutura social e a estrutura educacional brasileiras,
baseada na ideia de um todo integrado, onde um reproduz o outro e ambos são
exatamente iguais do ponto de vista da desigualdade econômica e social.
Este
conteúdo é baseado nos conceitos de fato social de Emile Durkheim, de estruturalismo de Levi-Strauss e do
conceito de estrutura, estruturada,
estruturante de Pierre Bourdieux. Ou seja, o sistema educacional propositalmente
reprodutor de uma sociedade profundamente desigual, preconceituosa, violenta,
discriminatória e injusta.
A
partir daí serão abordados os conceitos de violência
simbólica de Pierre Bourdieux e de agência
da micro-sociologia de Max Weber. Ou seja, a mudança de uma situação social
posta, só ocorre a partir da ação de cada um no seu micro ambiente, daí o papel
e a importância da educação como elemento de transformação pessoal,
profissional e social.
Objetivos:
O
objetivo geral desta aula é colocar em pauta a discussão sobre o papel do
ensino fundamental e médio na escola pública brasileira, que pode ser encarado
tanto como ferramenta de reprodução social quanto de transformação individual,
profissional e coletiva.
De
forma específica serão abordados os papeis dos alunos, professores e dirigentes
das entidades públicas e privadas de ensino neste contexto.
Metodologia:
A
metodologia utilizada em todas as aulas será baseada na no conceito da Pedagogia
da Autonomia de Paulo Freire.
As aulas
serão desenvolvidas basicamente através da apresentação e da discussão de
tópicos onde os alunos serão convidados a refletir sobre cada um deles, a
partir de sua realidade, de seus conceitos, de suas representações (visão de
mundo) e expectativas.
A internet
será utilizada como ferramenta de apoio para as aulas dadas em sala, através do
blog sociologiamaisqueeventual.blogspot.com
que conterá: arquivo dos conteúdos discutidos em sala, materiais complementares
e espaço para críticas.
Todos os
alunos serão convidados a participar compartilhando conteúdos, esclarecendo
dúvidas, exercitando a crítica, etc.
Avaliação: Continuada.
Tempo estimado: Uma hora aula
Bibliografia:
BOURDIEUX,
Pierre. A reprodução: elementos para uma
teoria do sistema de ensino. Lisboa, Editora Veja, 1978.
BOURDIEUX,
Pierre. O poder simbólico. Rio de
janeiro, Bertrand Brasil, 1996.
LEVI-STRAUSS,
Claude. O pensamento selvagem. São
Paulo. Papirus editora. 2007.
LEVI-STRAUSS,
Claude. Antropologia estrutural. Paris.
Plon. 1958.
WEBER,
Max. A ciência como vocação. Ensaios
de sociologia. Rio de Janeiro. Zahar, 1982.
Texto base:
A RELAÇÃO EDUCAÇÃO E SOCIEDADE (*)
Os Fatores Sociais que Intervém no Processo Educativo: Alberto Noé (**)
(*) Publicado na Revista Avaliação. Universidade de Campinas. Campinas, vol. 5 nº 3, setembro 2000
(**) Doutor em Sociologia (USP) Professor do Programa de Doutorado em Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires
INTRODUÇÃO
Os Fatores Sociais que Intervém no Processo Educativo: Alberto Noé (**)
(*) Publicado na Revista Avaliação. Universidade de Campinas. Campinas, vol. 5 nº 3, setembro 2000
(**) Doutor em Sociologia (USP) Professor do Programa de Doutorado em Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires
INTRODUÇÃO
O objetivo deste trabalho é percorrer a trajetória sociológica dos diferentes
desenvolvimentos teóricos sobre a questão Educação e Sociedade. Trataremos de
encontrar as articulações existentes entre as proposições sobre a Educação e os
postulados teóricos globais dos quais emergem.
Também delimitaremos o conceito de Educação e as funções do processo
educacional no interior da sociedade, para então considerar as abordagens que
dão conta da relação Educação e Sociedade e ver quais os fatores sociais que
intervêm nos processos educativos e como se integram nestes postulados com as estratégias
analíticas.
Na primeira parte, analisaremos os principais tópicos dos clássicos da
Sociologia delimitando o exame de determinados postulados básicos. Na segunda
parte analisaremos as questões mais significativas e os tratamentos mais
diversos sobre a relação Educação e Sociedade.
OS CLÁSSICOS DO PENSAMENTO SOCIAL
A educação, para os clássicos como Durkheim, expressa uma doutrina pedagógica,
que se apoia na concepção do homem e sociedade. O processo educacional emerge
através da família, igreja, escola e comunidade.
Fundamentalmente, Durkheim parte do ponto de vista que o homem é egoísta, que
necessita ser preparado para sua vida na sociedade. Este processo é realizado
pela família e também pelas escolas e universidades:
A ação exercida pelas gerações adultas sobre as que ainda não estão maduras
para a vida social, tem por objetivo suscitar e desenvolver na criança
determinados números de estados físicos, intelectuais e morais que dele
reclamam, por um lado, a sociedade política em seu conjunto, e por outro, o
meio especifico ao qual está destinado. (DURKHEIM, 1973:44)
Para Durkheim, o objeto da sociologia é o fato social, e a educação é
considerada como o fato social, isto é, se impõe, coercitivamente, como uma
norma jurídica ou como uma lei. Desta maneira a ação educativa permitirá uma
maior integração do indivíduo e também permitirá uma forte identificação com o
sistema social.
Durkheim rejeita a posição psicologista. Para ele, os conteúdos da educação são
independentes das vontades individuais, são as normas e os valores
desenvolvidos por uma sociedade ou grupo social em determinados momentos
históricos, que adquirem certa generalidade e com isso uma natureza própria,
tornando-se assim coisas exteriores aos indivíduos.
A criança só pode conhecer o dever através de seus pais e mestres. É preciso
que estes sejam para ela a encarnação e a personificação do dever. Isto é, que
a autoridade moral seja a qualidade fundamental do educador. A autoridade não é
violenta, ela consiste em certa ascendência moral. Liberdade e autoridade não
são termos excludentes, eles se implicam. A liberdade é filha da autoridade bem
compreendida. Pois, ser livre não consiste em fazer aquilo que se tem vontade,
e sim em se ser dono de si próprio, em saber agir segundo a razão e cumprir com
o dever. E justamente a autoridade de mestre deve ser empregada em dotar a
criança desse domínio sobre si mesma (DURKHEIM, 1973:47).
Talcott Parsons (1964), sociólogo americano, divulgador da obra de Durkheim,
observa que a educação, entendida como socialização, é o mecanismo básico de
constituição dos sistemas sociais e de manutenção e perpetuação dos mesmos, em
formas de sociedades, e destaca que sem a socialização, o sistema social é
ineficaz de manter-se integrado, de preservar sua ordem, seu equilíbrio e
conservar seus limites.
O equilíbrio é o fator fundamental do sistema social e para que este sobreviva
é necessário que os indivíduos que nele ingressam assimilem e internalizem os
valores e as normas que regem seu funcionamento.
Aqui encontramos uma primeira diferença com o pensamento de Durkheim, que
destaca sempre o aspecto coercitivo da sociedade frente ao indivíduo. Parsons
afirma que é necessária uma complementação do sistema social e do sistema de
personalidade, ambos os sistemas têm necessidades básicas que podem ser
resolvidas de forma complementar.
O sistema social para Parsons funciona harmonicamente a partir do equilíbrio do
sistema de personalidade. A criança aceita o marco normativo do sistema social
em troca do amor e carinho maternos.
Este processo se desenvolve através de mediações primarias: os próprios pais
através da internalização de normas, inicia o processo de socialização
primaria. A criança não percebe que as necessidades do sistema social estão se
tornando suas próprias necessidades. Desta maneira, para Parsons, o indivíduo é
funcional para o sistema social. Tanto para Durkheim como para Parsons, os
princípios básicos que fundamentam e regem ao sistema social são: continuidade,
conservação, ordem
harmonia, equilíbrio
Estes princípios regem tanto no sistema social, como nos subsistemas.
De acordo com Durkheim bem como Parsons, a educação não é um elemento para a
mudança social, e sim , pelo contrario, é um elemento fundamental para a
conservação e funcionamento do sistema social.
Uma corrente oposta a Durkheim e Parsons estaria constituída pela obra de Dewey
e Mannheim. O ponto de partida de ambos os autores é que a educação constitui
um mecanismo dinamizador das sociedades através de um indivíduo que promove
mudanças. O processo educacional para Dewey e Mannheim, possibilita ao
indivíduo atuar na sociedade sem reproduzir experiências anteriores,
acriticamente. Pelo contrario, elas serão avaliadas criticamente , com o
objetivo de modificar seu comportamento e desta maneira produzir mudanças
sociais.
É muito conhecida e difundida no Brasil a obra de Dewey, razão pela qual não a
aprofundaremos em detalhes. Entretanto, é necessário assinalar que para Dewey é
impossível separar a educação do mundo da vida:
A educação não é preparação nem conformidade. Educação é vida,
é viver, é desenvolver, é crescer. (DEWEY, 1971:29).
Para Dewey, a escola é definida como uma micro-comunidade democrática. Seria o
esboço da socialização democrática, ponto de partida para reforçar a democratização
da sociedade.
Segundo Dewey, educação e democracia formam parte de uma totalidade, definem a
democracia com palavras liberais, onde os indivíduos deveriam ter chances
iguais. Em outras palavras, igualdade de oportunidades dentro dum universo social
de diferenças individuais.
Para Mannheim, a educação é uma técnica social, que tem como finalidade
controlar a natureza e a historia do homem e a sociedade, desde uma perspectiva
democrática. Define a educação como:
O processo de socialização dos indivíduos para uma sociedade harmoniosa,
democrática porem controlada, planejada, mantida pelos próprios
indivíduos que a compõe. A pesquisa é uma das técnicas sociais necessárias para
que se conheçam as constelações históricas especificas. O planejamento é a
intervenção racional, controlada nessas constelações para corrigir suas
distorções e seus defeitos. O instrumento que por excelência põe em prática os
planos desenvolvidos é a Educação. (MANNHEIM, 1971:34)
A prática da socialização percorre diversos espaços, como família e outros
grupos primários, a escola, clubes, sindicatos, etc. Assim, a prática
democrática emerge horizontalmente permitindo a estruturação duma sociedade
igualitária. Concorda com Dewey que essa prática deveria ser
institucionalizada.
AS FUNÇÕES DO PROCESSO EDUCACIONAL
A pesar das profundas diferenças que separam as correntes sociológicas que se
ocuparam da questão, e que não podem ser ignoradas, existem entre elas um ponto
de encontro: a educação constitui um processo de transmissão cultural no
sentido amplo do termo (valores, normas, atitudes, experiências, imagens,
representações) cuja função principal é a reprodução do sistema social. Isto é
claro no pensamento durkheimiano, ao afirmar:
Em resumo, longe de a educação ter por objeto único e principal o indivíduo e
seus interesses, ela é antes de tudo o meio pelo qual a sociedade renova
perpetuamente as condições de sua própria existência. A sociedade só pode viver
se dentre seus membros existe uma suficiente homogeneidade. A educação perpetua
e reforça essa homogeneidade, fixando desde cedo na alma da criança as
semelhanças essenciais que a vida coletiva supõe
(DURKHEIM, 1973:52).
Também é este o sentido da formalização do processo de socialização do sistema
social parsoniano; da aprendizagem de papeis sociais atribuída a tal
socialização por Linton; dos ?arbítrios culturais? reproduzidos pela prática
pedagógica, que constituem um dos principais mecanismos de reprodução social
para Bourdieux e Passeron.
Aceitando esta perspectiva de analise, o problema é: como a educação cumpre
essa função e como se articula a outros mecanismos de reprodução social. Dado
que o tema remete a uma vasta e complexa questão, mais importante que se
perguntar pelas funções da educação em geral, é delimitar inicialmente o campo
de analise às funções da escola - uma das instituições que cumprem essa função
de reprodução ideológica, deixando de lado momentaneamente outras tão
importantes quanto aquela (família, meios de comunicação, sindicatos, partidos,
etc.).
Parece adequado recuperar as postulações que tentam uma articulação global
entre a escola e a reprodução social. O fato de que as mesmas se centram fundamentalmente
no problema da reprodução ideológica pode servir como uma primeira aproximação.
No entanto, não se deve perder
Em primeiro lugar, deve-se perguntar: qual é a função atribuída aos aparelhos
ideológicos no processo de reprodução social?
Se se privilegia a produção de bens materiais como eixo de analise no
funcionamento da sociedade, a história da humanidade pode ser reconstruída
através das formas de organização do trabalho social, isto é, a forma pela qual
os homens produzem bens materiais para a sua subsistência.
Desde este ponto de vista, é possível pensar que existe uma divisão entre os
diversos agentes que desempenham tal trabalho social.
Porem, talvez o mais importante seja o fato de que sobre tal divisão se ergue a
possibilidade de que um setor da sociedade organize o conjunto da atividade
produtiva, obtendo benefícios provenientes de seu controle dos meios de
produção.
E fundamentalmente no âmbito econômico, embora não exclusivamente, que se
coloca a possibilidade existência das classes sociais.
E é também nesse âmbito que se desenha, de inicio, a possibilidade de conflito
social que emerge da relação de exploração e subordinação à qual está submetido
o conjunto social dos não proprietários.
Claro está que a estruturação de tais classes, partindo da existência do
conflito, supõe uma permanente modificação da forma que sua relação assume.
Radica-se aí a possibilidade de identificação de diferentes épocas históricas e
o reconhecimento de que a sociedade capitalista constitui apenas uma dessas
épocas: aquela caracterizada pela forma em que a organização social do trabalho
conduz à existência de um modo de exploração social a qual se gera a
mais-valia.
Por que, então, pensar na reprodução em suas diferentes formas?
A mudança social ocorre necessariamente pelo fato de ser o conflito econômico
intrínseco ao conceito de sociedade que serve de ponto de partida?
Responder afirmativamente a essa pergunta seria cair em uma visão simplista da
sociedade. Se tal conflito existe potencialmente, a possibilidade de sua
realização a fim de produzir efeitos que realmente modifiquem a estrutura
social, supõe um complexo processo que não se resolve unicamente com mudanças
no interior do processo produtivo.
Se se admite este suposto, chegar-se-á à conclusão de que a sociedade não se
reproduz apenas no aspecto econômico, mas em todos seus níveis.
Compreender como e porque a sociedade logra se reproduzir, captar quais são os
mecanismos eficazes sobre os quais se assentam o seu funcionamento, pode ser,
então, uma chave para compreender suas reais possibilidades de mudança.
Em consequência, a visualização do conflito deverá transcender o econômico. A
analise da reprodução social também fará o mesmo.
De fato, parece pouco convincente atribuir a persistência de uma forma social
ao simples fato de que existe uma classe social possuidora dos meios de
produção, que se apropria do excedente econômico gerado pelo conjunto social
dos trabalhadores.
Igualmente, é pouco convincente pensar que a sociedade se mantém em função do
estrito controle social cujo monopólio aquela classe detém.
Sem duvida, a sociedade é algo mas complexo e em sua interpretação deve-se
introduzir não apenas a analise de suas instancias como, também, e
fundamentalmente, a articulação entre as mesmas. Dai a importância de alguns
trabalhos que pretendem centrar-se na analise das superestruturas, em sua
articulação com o aspecto econômico.
A escola e a reprodução social
As primeiras apreciações em torno dos chamados aparelhos ideológicos do Estado
foram feitas por Gramsci. As superestruturas do bloco histórico constituem uma
totalidade complexa em cujo interior se distinguem duas esferas essenciais: a
sociedade política e a sociedade civil.
A sociedade política agrupa o aparelho de Estado, entendido este em seu sentido
restrito, realizando o conjunto das atividades da superestrutura que dão conta
da função de dominação. Por sua vez, a sociedade civil constitui a maior parte
da superestrutura e é formada pelo conjunto dos organismos vulgarmente chamados
privados e que correspondem à função de hegemonia que o grupo social dominante
exerce sobre a sociedade global. Esta sociedade civil pode ser considerada sob
três aspectos analiticamente diferentes e complementares:
Como ideologia da classe dominante, ela alcança todos os ramos da ideologia, da
arte à ciência, incluindo a economia, o direito, etc. Como concepção do mundo,
difundida em todas as camadas sociais para vinculá-las à classe dirigente, ela
se adapta a todos os grupos: dai provêm seus diferentes graus qualitativos:
filosofia, religião, sentido comum, folclore; como direção ideológica da
sociedade, ela se articula em três níveis essenciais: a ideologia propriamente
dita, a estrutura ideológica - isto é, as organizações que a criam e a difundem
- e o material ideológico, isto é: os instrumentos técnicos de difusão da
ideologia: sistema escolar, mas media e bibliotecas. (PORTELLI, 1971: 23)
A partir destas considerações gerais, os problemas da estrutura e do material
ideológico passaram a ser temas recorrentes de análise.
Não obstante, o característico nesses estudos foi subordinar o conflito social
surgido no interior de tais instituições à análise formal de tais aparelhos ideológicos.
Contudo, o processo educacional deixou de ser analisado como um processo
a-histórico, para ser referido à sociedade capitalista.
Então, as perguntas fundamentais passaram a ser: que relação guarda o sistema
escolar com a estrutura das relações de classe? Como tal sistema escolar age de
maneira a assegurar a reprodução ideológica e, em consequência, a reprodução da
sociedade capitalista? E, por fim, a pergunta, como os fatores sociais agem no
interior desse sistema educacional?
Um dos principais esforços de elucidação deste problema foi enunciado desta
maneira:
Para compreender adequadamente a natureza das relações que unem o sistema
escolar à estrutura das relações de classe e elucidar sem cair em uma espécie
de metafísica da harmonia das esferas o do providencialismo do melhor e do
pior, das correspondências, homologias e coincidências redutíveis em ultima
analise à convergência de interesses, alianças ideológicas e afinidades entre
habitus, deixando de lado o discurso interminável que resultaria de percorrer
em cada caso a rede completa das relações circulares que unem estruturas e
práticas pela mediação do habitus como produto das estruturas, para definir os
limites de validade (isto é, validade desses limites) de uma expressão abstrata
como a de sistema de relações entre o sistema de ensino e a estrutura das
relações de classe. (BOURDIEU & PASSERON, 1976:212).
Isto é, o nexo conceitual entre estruturas e praticas, que estes autores
elaboram, é o de habitus definido como:
Sistema de disposições duráveis e transferíveis que, integrando todas as
experiências passadas, funciona a cada momento como matriz de percepções,
apreciações e ações, e torna possível a realização de tarefas suficientemente
diferenciadas, graças à transferência analógica de esquemas que permitem
resolver problemas da mesma forma, e, graças a correções incessantes dos
resultados obtidos, dialeticamente produzidos por estes resultados (BOURDIEU
& PASSERON, 1976:214).
Com estes postulados, tenta-se demostrar que a sociedade se organiza não apenas
a partir de bens econômicos, mas também a partir da produção de bens
simbólicos, de habitus de classe, que, transmitidos fundamentalmente pela
família, levam a que os indivíduos organizem um modo de vida e uma determinada
concepção do mundo. A introdução desta dimensão se fundamenta no conceito de
classe em jogo:
As diferenças propriamente econômicas são explicadas por distinções simbólicas
na maneira de usufruir esses bens, ou melhor, (é) através do consumo, e mais,
através do consumo simbólico (ou ostentatório) que se transmitem os bens
simbólicos, as diferenças de fato (se transformam assim) em distinções
significativas. A lógica do sistema de ações e procedimentos expressivos não
pode ser compreendida de maneira independente de sua função, que é dar uma
tradução simbólica do sistema social como sistema de inclusão e exclusão?,
segundo a expressão de Mc Guire, mas também significar a comunidade ou a
distinção, transmutando os bens econômicos em atos de comunicação. De fato,
nada mais falso do que acreditar que as ações simbólicas (ou o aspecto
simbólico das ações) nada significam Além delas mesmas; em verdade, elas
expressam sempre uma posição social segundo uma lógica que é a mesma da
estrutura social: a lógica da distinção (BOURDIEU & PASSERON, 1976:217).
Agora, bem instaladas as classes sociais em nível do mercado, este passa a ser
visualizado como a mediação entre a produção - ou a forma de participação na
produção - e o jogo de distinções simbólicas onde se reproduzem as relações de
força entre as classes.
Então, a pergunta é: quem e através de que mecanismos, reproduzem essas
distinções simbólicas?.
Esses autores privilegiam família como instituição reprodutora dos sistema
social. A família é que introduz o indivíduo no mundo da cultura, as crianças
são socializadas muito antes de entrarem na escola. Essa socialização
corresponde a valores (em sentido amplo) que são patrimônio cultural do
universo social a que pertencem.
Como, então, se relaciona a sua ação com aquela empreendida pelo sistema
educacional?
Durkheim, como seus seguidores, se esforçava por assinalar que a importância do
processo educacional se baseava no fato de que o mesmo tinha como função principal
a transmissão da cultura na sociedade. Esta cultura era assim apresentada como
única, indivisa, propriedade de todos os membros que compõem o conjunto social.
Uma das pretensões de Bourdieux e Passeron é justamente demostrar a não
existência de uma cultura única, mais que:
Na realidade, devido ao fato de que elas correspondem a interesses materiais e
simbólicos de grupos ou classes diferentemente situadas nas relações de força,
esses agentes pedagógicos tendem sempre a reproduzir a estrutura de
distribuição do capital cultural entre esses grupos ou classes, contribuído do
mesmo modo para a reprodução da estrutura social: com efeito, as leis do
mercado em que se forma o valor econômico ou simbólico, isto é, o valor
enquanto capital cultural, dos arbítrios culturais reproduzidos pelas
diferentes ações pedagógicas (indivíduos educados) constituem um dos mecanismos
mais o menos determinantes segundo os tipos de formação social, pelos quais se
acha assegurada a reprodução social, definida como reprodução das relações de
força entre classes sociais. (BOURDIEU & PASSERON, 1976:218).
O sistema escolar reproduz, assim, a nível social, os diferentes capitais
culturais das classes sociais e, por fim, as próprias classes sociais. Os
mecanismos de reprodução encontram sua explicação ultima nas relações de poder,
relações essas de domínio e subordinação que não podem ser explicadas por um
simples reconhecimento de consumos diferenciais.
Assim, quando analisam a função ideológica do sistema escolar, uma de suas
preocupações é justamente a da possível autonomia que pode ser atribuída a ele,
em relação à estrutura de classes. Com efeito, Bourdieux e Passeron perguntam:
Como levar em conta a autonomia relativa que a Escola deve à sua função
específica, sem deixar escapar as funções de classes que ela desempenha,
necessariamente, em uma sociedade dividida em classes? (BOURDIEU &
PASSERON, 1976:219).
E respondem: Se não é fácil perceber simultaneamente a autonomia relativa do
sistema escolar, e sua dependência relativa à estrutura das relações de classe,
é porque, entre outras razões, a percepção das funções de classe do sistema
escolar está associada, na tradição teórica, a uma representação
instrumentalista das relações entre a escola e as classes dominantes como se a
comprovação da autonomia supusesse a ilusão de neutralidade do sistema de
ensino. (BOURDIEU & PASSERON, 1976:220).
O que parece, sim, surgir da exposição é que no caso das relações entre escola
e classes sociais a harmonia apresentada pelos autores parece perfeita: as
estruturas objetivas produzem os habitus de classe e, em particular, as
disposições e predisposições que, gerando as praticas adaptadas a essas
estruturas, permitem o funcionamento e a perpetuação das estruturas.
Bourdieux e Passeron falam da reprodução das classes do ponto de vista de uma
analise ideológica.
Neste sentido, a noção de existência de códigos linguísticos é de central
importância. Existem códigos linguísticos que se expressam claramente na
linguagem, gerando relações diferentes, constituem representações,
significações próprias da cultura de grupos ou classes sociais.
Frente a essa cultura fragmentada, o sistema escolar impõe uma norma linguística
e cultural determinada, mas aproximada àquela que é parte do universo simbólico
das famílias burguesas, e distanciada, em consequência, daquela dos setores
populares. O êxito ou o fracasso das crianças na escola se explica pela
distancia de sua cultura ou língua em relação à cultura e à língua escolares.
Finalmente, introduziremos o ponto de vista de Poulantzas sobre o papel da
escola, no qual se privilegia como eixo de analise a divisão trabalho
intelectual/trabalho manual, como forma de analisar tanto a função ideológica
como a de reprodução da força de trabalho anexa à mesma:
Com efeito, só se pode dizer de forma totalmente análoga e aproximativa que a
escola forma trabalho intelectual de um lado e trabalho manual (formação
técnica) de outro. Numerosos estudos mostraram amplamente que a escola
capitalista não pode, situada globalmente como está, ao lado do trabalho
intelectual, formar o essencial do trabalho manual. A formação profissional
operaria e essencialmente o saber técnico operário não se ensina (não pode ser
?ensinado) na escola capitalista, nem mesmo em suas máquinas e aparelhos do
ensino técnico. O que se ensina principalmente à classe operaria é a
disciplina, o respeito à autoridade , a veneração de um trabalho intelectual
que se acha quase sempre fora do aparelho escolar. De maneira alguma, as coisas
se apresentam da mesma forma para a nova pequena burguesia e para o trabalho
intelectual, sendo sua força de trabalho, em seu lado intelectual, efetivamente
formada pela escola.
(POULANTZAS, 1975:288)
Isto é, o que Poulantzas tenta reafirmar é que as funções da escola só podem
ser analisadas em função das classes sociais às quais dirige sua ação, e não em
função de instituições ou redes escolares. Isso nos permite encontrar no
interior da escola uma reprodução da divisão social do trabalho e afirmar que:
O principal papel da escola capitalista não é qualificar diferentemente o
trabalho manual e o trabalho intelectual, mas, muito mas, desqualificar o
trabalho manual (sujeitá-lo), qualificando só o trabalho intelectual.
(POULANTZAS, 1975:289).
BIBLIOGRAFIA
BOURDIEU, P. & PASSERON (1976). La Reproducción. México,
Editorial Siglo XXI.
DEWEY, John. (1971). Vida e Educação. São Paulo, Edições Melhoramento.
DURKHEIM, Emile. (1973). Educación y Sociología. Buenos Aires, Editorial
Shapire.
MANNHEIM, Karl. (1971). Libertad y Planificación Democratica. México,
Editorial Fondo de Cultura Economica.
PARSONS, Talcott. (1965). The Social Sistem. London, The Free Press of Glencoe.
PORTELLI, Hugues. (1971). Gramsci y el Bloque Historico. México,
Editorial Siglo XXI.
POULANTZAS, Nicos. Poder Politico y Clases Sociales. (1975). México,
Editorial Siglo XXI.

Nenhum comentário:
Postar um comentário