quarta-feira, 24 de abril de 2013

Matéria 0905: Conteúdos para temas prováveis nos próximos exames vestibulares.

A FACE DA INTOLERÂNCIA

Bibi Aisha: Bibi já pode sorrir.

Matéria sugerida pelo aluno Pedro Augusto Gil, do 3º A. 


A jovem afegã mutilada pelo marido, que virou símbolo de opressão, recebeu uma prótese no nariz

LETÍCIA SORG

RESGATADA
Bibi durante cerimônia em Los Angeles, no dia 8 de outubro de 2011. O futuro dela ainda é incerto.

Quando o rosto da jovem afegã Bibi Aisha, de 18 anos, apareceu na capa da edição da revista americana Time de 9 de agosto de 2010, o que chamou a atenção dos leitores, assim como das pessoas que em todo o mundo tiveram contato com a imagem, foi uma mutilação. O nariz de Bibi havia sido cortado à faca, assim como as duas orelhas, ocultas pelo cabelo. Ela era mais uma vítima da violência contra as mulheres no Afeganistão. No último dia 8, Aisha começou a vencer a barbárie. Ela fez sua primeira aparição pública com uma prótese de nariz, em um evento em Beverly Hills, o bairro mais elegante de Los Angeles. A jovem afegã está desde agosto nos Estados Unidos sob a proteção da Fundação Grossman para Queimados. A instituição trouxe Aisha do Afeganistão, tem custeado sua estada nos EUA e vai pagar pelas cirurgias de reconstrução de rosto a que ela vai se submeter no futuro. A jovem vem sendo acompanhada por psicólogos e médicos, que dirão quando ela está pronta para a plástica. “Ela se sentiu ótima com a prótese e está muito feliz”, disse a ÉPOCA Esther Hyneman, da ONG Mulheres pelas Mulheres Afegãs, que abrigou Aisha por nove meses no Afeganistão.

Muitos dos detalhes que cercam a história de Aisha ainda são obscuros. Em uma tentativa de protegê-la, não se diz exatamente de que cidade ela vem e qual o sobrenome da sua família. Sabe-se que ela foi levada a uma base militar americana em Tarin Kowt, na província de Uruzgan. Os detalhes são imprecisos, mas Aisha teria se arrastado das montanhas, onde fora deixada para morrer depois da mutilação. Mesmo sangrando muito, ela teria conseguido chegar a uma aldeia próxima, de onde foi levada aos médicos americanos. Por falta de documentos e informações familiares, não há certeza sobre a idade dela.

O drama de Aisha começou mais ou menos em 2001, na mesma época em que os americanos invadiram o Afeganistão em busca de Bin Laden, o responsável pelo ataque às Torres Gêmeas em 11 de setembro. Com cerca de 10 anos, ela foi dada a outra família como “baad”, uma espécie de indenização. Seu tio havia matado um parente do homem que viria a ser seu marido. Ela foi o presente que selou a paz entre as famílias. Segundo a ONG que protege Aisha, uma de suas irmãs também foi parte do pacote. Como se trata de uma região controlada pelos talebans, à qual a ONG não tem acesso, não se sabe da situação dessa segunda menina.

VÍTIMA
Bibi em um abrigo para mulheres no Afeganistão, em agosto deste ano, e na capa da Time, no mesmo mês. Agora ela espera em Los Angeles pela cirurgia de reconstituição

Aisha conta que nessa família ela dormiu num estábulo até menstruar e ser desposada por um dos homens da casa. Mas sua situação não melhorou. Diz que apanhava frequentemente. Depois de uma surra especialmente brutal, ela fugiu. Teria entre 16 e 17 anos. Com a suposta ajuda de um vizinho, ela chegou a Kandahar, uma das principais cidades do país, dominada pelo Taleban. Como ela não estava sob a guarda de nenhum homem, foi detida na rua e levada a uma prisão feminina, onde ficou por quatro meses. De alguma forma o pai conseguiu localizá-la e libertá-la. Mas, como mandam os costumes, a devolveu ao marido. Possesso com a desobediência, este mandou que os irmãos a segurassem e, pessoalmente, cortou o nariz e as orelhas de Aisha. Depois fez com que a levassem às montanhas para morrer. A ONG que cuida da jovem e a revista Time dizem que o marido dela é taleban. Uma jornalista da revista Nation, que também entrevistou Aisha, ouviu dela que o marido não fazia parte do grupo. A questão é importante por ter sido usada como uma justificativa política para prolongar a presença americana no Afeganistão.

Analfabeta e com conhecimentos mínimos da realidade externa aos muros da casa onde vivia, a própria Aisha é uma fonte precária de informações. Esther Hyneman, que estava com ela na semana passada, diz, porém, que presenciou um ataque nervoso de Aisha à simples menção da palavra Taleban. “Ela é muito esperta, mas cresceu num vilarejo e nunca frequentou a escola”, diz Esther. A ativista conta que comprou um mapa-múndi para mostrar a Aisha onde fica o Afeganistão e a cidade de Los Angeles, onde ela está agora.

O que o futuro reserva para a jovem afegã é uma incógnita. Depois das cirurgias, ela certamente passará um período de recuperação nos EUA, mas não se sabe para onde irá depois. No momento, exibe sintomas de estresse pós-traumático naturais em quem passou por graus elevados de abandono, maus-tratos e violência física e psicológica. Ela terá condições de voltar a viver no Afeganistão? “É muito cedo para pensar nisso”, diz Esther. “Aisha é uma sobrevivente e está enfrentando um dia de cada vez.” Agora, com um sorriso nos lábios

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