segunda-feira, 22 de abril de 2013

Aula: 0302 – O capital cultural na educação

Tema da aula: Educação

Título: O capital cultural do aluno como seu ponto de partida.

Ênfase: Como os valores culturais (familiares, comunitários e midiáticos) interferem no comportamento e no desempenho escolar dos alunos da educação básica da rede pública.

Conteúdos:
A educação escolar vista como uma obrigação legal e/ou como uma necessidade social e não como uma ferramenta de acesso a uma janela de oportunidades;
O conteúdo (conhecimento escolar) encarado como algo necessário ou até importante, mas não como algo interessante;
A escola vista como espaço exclusivo para a educação formal para o trabalho e para vida social;
A freqüência escolar como acesso/manutenção á programas sociais ou mesmo á alimentação;
A vitória incontestável das mídias eletrônicas sobre os livros tradicionais no universo em questão.

Objetivos:
O objetivo central desta aula é discutir com os alunos a existência e a importância do capital cultural (individual e comunitário) nos temos de Pierre Boudieux, como ponto de partida para o desenvolvimento pessoal, profissional e social de cada um.
Os objetivos específicos são: (01) discutir com os alunos a possibilidade de transformar as dificuldades iniciais impostas por um capital cultural “pobre” em motivação para o alcance de objetivos; (02) mostrar para os alunos a necessidade de estudos complementares, especialmente o exercício da leitura e a participação em eventos educativos, políticos e culturais (extra curriculares) na composição de seus capitais culturais e (03), discutir de forma sistematizada a influência (positiva ou negativa) da mídia eletrônica na formação do capital cultural de cada um.

Metodologia:
A metodologia utilizada em todas as aulas será baseada na no conceito da Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire.
As aulas serão desenvolvidas basicamente através da apresentação e da discussão de tópicos onde os alunos serão convidados a refletir sobre cada um deles, a partir de sua realidade, de seus conceitos, de suas representações (visão de mundo) e expectativas.
A internet será utilizada como ferramenta de apoio para as aulas dadas em sala, através do blog sociologiamaisqueeventual.blogspot.comque conterá: arquivo dos conteúdos discutidos em sala, materiais complementares e espaço para críticas.
Todos os alunos serão convidados a participar compartilhando conteúdos, esclarecendo dúvidas, exercitando a crítica, etc.

Avaliação: Continuada

Tempo estimado: Duas horas aula.


Bibliografia:
BOURDIEU, Pierre. Escritos de educação. Petrópolis: Vozes, 1998.

________________. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Lisboa, Editora Veja, 1978.
________________. O poder simbólico. Rio de janeiro, Bertrand Brasil, 1996

WEBER, Max. A política como vocação. Tradução de Maurício Tragtenberg. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2003.



Textos base:

Texto 01:

EDUCAÇÃO


A importância do capital cultural de Bourdieu

Raquel Menezes


Cena do filme Escritores da Liberdade
Emprestado da economia, o termo capital cultural tem um papel nodal para o pensamento sociológico de Pierre Bourdieu, cujos estudos acentuaram a dimensão de que a origem social dos alunos se constitui em desigualdades escolares. Em outras palavras, o capital cultural é o que pode designar o sucesso ou o fracasso de cada aluno. Afinal, algumas evidências apontam que as limitações do conceito de capital econômico explicam a ligação entre o nível socioeconômico e os bons resultados educacionais. Isso nos faz considerar que outras formas de capital, como o social e o cultural, contribuem diretamente e interagem com o capital econômico para fortalecer as relações sociais.
Ao longo da primeira metade do século XX, a visão predominante atribuía à escola o papel central na construção de uma nova sociedade, justa, moderna, aberta e democrática, na qual a escola pública e gratuita garantiria o acesso à educação, e, conseqüentemente, à igualdade de oportunidades. Foi, entretanto, no contexto da democratização do acesso à escola fundamental e do prolongamento da escolaridade obrigatória que se tornou evidente o problema das desigualdades de escolarização entre os grupos sociais. O otimismo marcante do período anterior foi substituído por uma postura de cunho mais pessimista, embasada na influência da origem social nos resultados escolares, ou seja, a forte relação existente entre desempenho escolar e origem social (classe, etnia, sexo, local de moradia, entre outros). Nas palavras de Pierre Bourdieu:
Não há dúvida de que os julgamentos que pretendem aplicar-se a pessoas em seu todo levam em conta não somente a aparência física propriamente dita, que é sempre socialmente marcada (através de índices como corpulência, cor, forma do rosto), mas também o corpo socialmente tratado (com a roupa, os adereços, a cosmética e, principalmente, as maneiras e a conduta) (1998, p. 193).
Um exemplo da importância do capital cultural (+ social) sobre o capital econômico está em Poder, Sexo e Letras na República Velha, de Sergio Miceli, livro no qual é apresentada análise que enfoca, em perspectiva sociológica, o desenvolvimento da vida intelectual brasileira em seu período de formação. Tendo como pilar o Modernismo, fase que permitiu que o trabalho intelectual fosse profissionalizado, especialmente em sua forma literária, os estudos de Miceli observam que a formação de um campo especializado de produção de bens simbólicos depende da identidade que o indivíduo tem com os símbolos – como a batina e a farda, por exemplo. Desse modo, a morte do patriarca e a falência econômica são possíveis causas de uma “reconversão a uma carreira literária determinada” (Miceli, 1977, p. 36), como aconteceu com Humberto de Campos Véras. Assim, esses símbolos de que fala Miceli são resultado do capital cultural, ou, nas palavras de Enguita, “à medida que se sobe de nível no aparato educacional, as relações do estudante com o conteúdo e o método ficam mais flexíveis” (1989, p. 112).
A posição social, ou ainda o capital cultural de que nos fala Pierre Bourdieu, está entrelaçado à inserção no mercado discutida pelos marxistas, na seleção social abordada pelos funcionalistas e pelos interacionistas. Tendo o exemplo do já citado Humberto de Campos e à luz dos escritos de Bourdieu, percebemos que o processo inicial de acumulação do capital cultural tem inicio, ainda que inconscientemente, desde a origem, sem atraso, sem perda de tempo, pelos membros das famílias que possuem capital cultural. Isso permite pensar que um filho de família de classe média terá mais sucesso do que o filho de um operário, que por sua vez terá mais que um filho de um trabalhador do campo. Desse modo, a posse de capital cultural favoreceria o desempenho escolar na medida em que facilita a aprendizagem dos conteúdos e códigos escolares. As referências culturais, a erudição e o domínio maior ou menor da língua culta, trazidos de casa por certas crianças, facilitam o aprendizado escolar à medida que funcionariam como ponte entre o mundo familiar e a cultura escolar. A educação escolar, no caso de crianças oriundas de meios culturalmente favorecidos, seria uma espécie de continuação da educação familiar, enquanto para as outras crianças significaria algo estranho, distante ou mesmo ameaçador.
Outro exemplo de como o capital cultural é relevante no processo de formação, mais que isso, como é determinante no sucesso (ou no fracasso) de uma trajetória escolar, é o filme Escritores da liberdade. Entre outros tantos filmes sobre alunos norte-americanos indisciplinados, este filme de 2007 tem caráter diferencial: ainda que despropositadamente, Escritores da liberdade discute a relevância do capital cultural na sociedade escolar. Grosso modo, no longa-metragem a história real de Erin (interpretada por Hilary Swank) é narrada ora por uma das alunas, a mesma que se compara a (até então desconhecida para os alunos) Anne Frank, ora pelos próprios fatos. A professora novata em questão, interessada em lecionar Língua Inglesa e Literatura, vê-se diante de uma turma de adolescentes resistentes ao ensino convencional – alguns estão ali cumprindo pena judicial, quase todos são reféns das gangues avessas ao convívio pacífico com os diferentes.
É nesse filme que uma cena surpreendentemente emblemática é concedida. Ao serem questionados sobre o que foi o Holocausto, os alunos da novata Erin veem-se diante do desconhecido. E, quando perguntados sobre quem já tinha ouvido falar no terrível acontecimento da nossa história, apenas um aluno (o único branco e de classe média) sabia o que era. Ao ver esse filme, principalmente essa cena, torna-se inevitável não pensar em algumas palavras de Bourdieu, mais precisamente nas que definem o que seja capital cultural:
conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de interreconhecimento ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, como conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns (passíveis de serem percebidas pelo observador, pelos outros ou por eles mesmos), mas também são unidos por ligações permanentes e úteis
(Bourdieu, 1998, p. 28)
De acordo com o que foi dito, para Bourdieu, é a família que realiza os investimentos educativos que transmitem para a criança um determinado quantum de capital cultural durante seu processo de socialização, que inclui saberes, valores, práticas, expectativas quanto ao futuro profissional e a atitude da família em relação à escola. Bourdieu observa também que o grau de investimento na carreira escolar está vinculado ao retorno provável que se pode obter com o título escolar, não apenas no mercado de trabalho, mas também nos diferentes mercados simbólicos, como o matrimonial, por exemplo.

Referencias bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. Escritos de educação. Petrópolis: Vozes, 1998.
Escritores da liberdade (Freedom Writers), de Richard LaGravenese.
ENGUITA, Mariano Fernández. “A face oculta da escola”. Educação e trabalho no capitalismo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
MICELI, Sergio. Poder, Sexo e Letras na República Velha. São Paulo: Perspectiva, 1977.
Publicado em 13 de janeiro de 2009

Texto 02:

Aluno lê 1,7 livro ao ano por vontade própria


Renata Cafardo

Os estudantes brasileiros lêm 7,2 livros por ano, mas 5,5 deles são didáticos ou indicados pela escola. Apenas 1,7 livro é lido por vontade e escolha própria. Esses são alguns dos resultados da pesquisa Retratos da Leitura que o Instituto Pró-Livro divulga hoje (28/5) em Brasília, obtidos com exclusividade pelo Estado. Foi a primeira vez que os hábitos de leitura dos alunos de todas as idades foram analisados no País.
O resultado condiz com o mau desempenho dos alunos brasileiros em leitura em avaliações internacionais, como o Pisa. No último exame, feito em 2006, mais de 50% ficaram nos mais baixos níveis de compreensão e interpretação de textos.
A quantidade de livros aumenta conforme a classe social, a escolaridade e a região onde vivem. Entre os que ganham mais de 10 salários mínimos, por exemplo, são 5,3 livros por ano, sem contar os didáticos. O índice é próximo dos registrados em outros países, como Espanha (5 livros por ano) ou Argentina (5,8). Na França, são mais de 7. Já na Região Norte do Brasil, praticamente só se lê o que a escola pede.
Especialistas são unânimes em salientar a importância do livro didático para incentivar a leitura entre estudantes. Mas acreditam que menos de dois livros por ano é uma média baixa. Mesmo com essa média baixa, os estudantes ainda lêem mais do que a população em geral, cujos dados serão divulgados hoje.
"Um bom trecho literário num livro didático leva o aluno a procurar o livro todo, a buscar o autor", diz a educadora e especialista em leitura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Maria Antonieta Cunha.
Para o coordenador da pesquisa, Galeno Amorim, isso mostra a importância dos programas de distribuição de livros didáticos do governo, que existem desde os anos 90. O Ministério da Educação compra exemplares - didáticos e de literatura, para as bibliotecas - para todas as escolas do País.
Apesar disso, 46% dos estudantes do País dizem não freqüentar bibliotecas. "Muitas vezes as escolas têm os acervos enviados pelo governo, mas não montam a biblioteca por falta de funcionário, de espaço. Existe também essa dificuldade de acesso físico ao livro", completa a pesquisadora do Instituto Fernand Braudel, Patrícia Guedes, que coordena um programa que estimula a leitura nas escolas públicas.
Ela conta que, muitas vezes, o estudante afirma não gostar de ler "porque não teve alguém que despertasse essa paixão nele". "Não há políticas públicas nesse sentido, só práticas isoladas de alguns professores", afirma. Na pesquisa, 17% afirmaram não gostar de ler.
TV, música, sair com amigos e descansar são itens que vêm antes da leitura na preferência dos estudantes para ocupar o tempo livre. "Eles não percebem que o livro, assim como a TV e o cinema, também relaxa. A leitura é vista como uma obrigação", diz Maria Antonieta.
As gêmeas Camila e Bianca Silva de Moura, de 9 anos, são exemplos de que há exceções. "Ler é muito mais legal do que ver TV, do que mexer no computador", diz Bianca, que contabiliza "uns 50 livros" lidos desde que foi alfabetizada.
As duas moram no Itaim Paulista, estudam em escola pública e seus pais nem sequer terminaram o ensino médio. A mãe, Laura, sempre incentivou a leitura, trocando livros com os vizinhos e emprestando exemplares da escola. Nesse ponto, a família Silva entra nas estatísticas: 62% dos estudantes dizem que a mãe é uma das pessoas que mais os influenciam a ler.
"O último livro que li foi na 5ª série", diz o estudante do ensino médio Leonardo Matsumura, de 16 anos. Ele conta que, quando os professores solicitam a leitura de um livro, ele procura resumos na internet. Na pesquisa, 8% dos estudantes dizem ler com freqüência na internet.
O Instituto Pró-Livro é uma entidade fundada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) e pela Associação Brasileira de Editores de Livros (Abrelivros). "Os índices vêm melhorando, mas ainda são insuficientes", diz o presidente da Abrelivros e do instituto, Jorge Yunes.

Fonte: http://www.crmariocovas.sp.gov.br/noticia.php?it=10902  O Estado de SP.

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